Decepção – A frustração aliada do sentimento de traição

A decepção é um termo usado em diversas situações para evidenciar um desengano ou desilusão, causando uma série de sentimentos negativos associados a tristeza, mágoa e até raiva. Isso tudo direcionado a uma situação específica ou a uma pessoa.

Indo além dessa superfície, o significado da palavra vem do latim “deceptio” que significa engano, dolo ou trapaça. Logo, a decepção é quando esse erro faz com que sentimentos e compreensões sejam colocados “à prova” ou mesmo por percebermos que nos enganamos (ou fomos enganados).

Assim, aqui você vai entender melhor como exatamente essas decepções acontecem, porque são tão dolorosas e o que fazer diante desse sentimento capaz de paralisar você.

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O que é decepção?

O termo “decepção” vem do latim “deceptio” e é traduzido como trapaça, engano ou uma surpresa desagradável. Por isso, podemos dizer que acontece quando um determinado resultado é esperado, mas não é alcançado. Ou as expectativas ficam bem abaixo da “linha do aceitável”.

Também podemos apontar a decepção como um sentimento de insatisfação ou desilusão. Por isso, se assemelha em alguns aspectos com o arrependimento, principalmente quando o engano provém de alguma decisão ou escolha pessoal.

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Diferentemente de um arrependimento, quando remoemos as escolhas e passos que tomamos para chegar ali, o foco da decepção está no resultado negativo.

Por exemplo, uma situação bastante comum (e problemática) acontece nos locais de trabalho e posso compartilhar algo pessoal.

Atuava em uma empresa havia três anos e acreditava que poderia ter algum tipo de promoção. Afinal, considerava que o meu esforço e dedicação seriam validados.

Esses sentimentos eram impulsionados por algumas falas de superiores, que transmitiam a velha sensação de “time” e de “família” dentro da empresa.

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Entretanto, qual foi a surpresa quando, alguns meses depois, um outro colaborador foi promovido sem ter feito absolutamente nada de significante dentro da empresa. Mas, era familiar de um dos líderes.

Claro que tive o sentimento de arrependimento, por não ter saído da empresa antes ou mesmo por não ter percebido precocemente como as coisas aconteciam. Mas o principal sentimento foi de decepção.

Ou seja, veio o sentimento através da surpresa totalmente desagradável, de ter sido traído ou trapaceado.

Junto a isso veio a frustração por não ter atingido um objetivo, de impotência pelo inesperado e não satisfação. Tudo provocando um grande incomodo psíquico e desânimo.

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Por que a decepção dói tanto?

Uma dúvida constante sobre as coisas que afetam o ser humano é: por que exatamente isso dói tanto? Daí a importância de entender como isso funciona no cérebro.

Dessa forma, é importante considerarmos que a decepção está diretamente relacionado com o sistema de recompensas.

Em resumo, o cérebro possui esse sistema que envolve diferentes circuitos. Assim, processa todas as informações e responde com as sensações de satisfação e prazer.

E é justamente neste ponto que o cérebro vicia: nessas sensações positivas que vem das recompensas.

Quando você come algo que gosta muito, esse sistema é ativado, gerando todas aquelas sensações legais. Logo, você vai querer comer aquele alimento mais vezes, para ter esse sentimento. Entretanto, isso altera a sua tolerância. Ou seja, vai precisar comer cada vez mais, já que os circuitos se tornam mais tolerantes.

Além disso, é importante dizer que aquilo que causa prazer em um indivíduo, pode não causar em outro. Tudo é uma questão de experiências anteriores, hábitos e preferências.

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E qual a relação disso tudo com a dor da decepção?

Na prática, a decepção dói tanto porque afeta esse sistema de recompensas e provoca um desequilíbrio no qual reduz o nível de neurotransmissores relacionados ao prazer.

Em outras palavras, as sensações ligadas a felicidade, prazer e bem-estar, vão sendo diminuídas.

Claro que a vida é cheia de desilusões, principalmente quando colocamos nossas expectativas em cima de terceiros, gerando a frustração.

Neurologicamente, isso provoca um disparo que reduz a serotonina e dopamina, mas também as endorfinas. Ou seja, é uma dor psíquica real.

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A endorfina é um analgésico natural do corpo capaz de garantir o bem-estar, evitar a ingestão de remédios e atuar diretamente na dor e no estresse.

Quando o cérebro identifica a necessidade de uma resposta, libera o neurotransmissor.

Por sua vez, ele começa a reduzir algumas dores e cria uma sensação de bem-estar. Claro que não funciona a longo prazo e para tudo, mas é essencial na rotina, ajuda no humor e ansiedade, bem como combate crises e depressão.

A decepção vem de quem menos espera?

Uma questão bastante comum quando pensamos em frustração ou o sentimento de ter sido enganado, é que isso popularmente surge quando é inesperado ou de pessoas próximas.

E por que exatamente isso parece acontecer com aqueles que temos mais afeto ou depositamos nossa confiança?

A compreensão dessa questão começa com algo mais simples que essa reflexão toda: qual foi a ideia que você colocou naquele indivíduo?

Mesmo de forma inconsciente, é natural adicionar expectativas nas situações, relações e pessoas, que podem ou não condizer com aquilo que é real. Afinal, é uma percepção própria e individual.

Imagine, por exemplo, que você começa um relacionamento de amizade com uma determinada pessoa. Vocês conversam o dia todo, dividem experiências e traumas, falam sobre sonhos e saem juntos.

Com tudo isso, é natural imaginar que conhece aquele indivíduo, que sabe o que ele quer e até o que ele vai fazer. Mas não há como ter certeza disso, já que o ser humano está em constante mudança e novas coisas podem surgir.

Agora, suponha que vocês tenham falado sobre uma viagem juntos ou mesmo mudar de cidade ou morar no mesmo bairro futuramente. 

Provavelmente, vai ficar decepcionado se esse amigo aparecer na sua porta dizendo que recebeu uma proposta incrível de trabalho em uma cidade oposta ao que tinham planejado. E mais decepcionado ainda quando descobrir que ele já aceitou, está procurando um lar e arrumando as malas.

Entretanto, a realidade é que isso foi um imprevisto que não era previsível e, mesmo que fique feliz pelo outro, ainda vai se sentir traído.

Isso pode acontecer com qualquer um, mas é mais fácil depositarmos esperanças e sonhos naqueles que estão mais próximos ou são amados. Além disso, esperamos que essas pessoas correspondam a essas expectativas.

Sendo que, na realidade, elas poderiam nem saber o que você estava esperando.

Mas há exceções

Como diz o ditado: para toda regra, há uma exceção.

Em resumo, depositamos as expectativas, mas as pessoas podem contribuir para que isso aconteça.

Não é incomum ouvir que um casal começou a ter problemas a partir do instante em que uma das partes decidiu ir contra tudo aquilo que haviam planejado.

Isso costuma ocorrer quando o casal tem uma vida inteira juntos, ambos falam sobre o desejo de ter um filho, um pet, uma casa ou morar fora do país. E então, em um dia “aleatório”, quando tudo parece propicio para a realização do sonho, o outro diz que não quer mais aquilo.

Neste cenário, a ideia foi nutrida por ambas as partes e você vai se sentir que foi traído, que “perdeu tempo” e oportunidades, que foi “deixado para trás”, etc.

Se você está passando por isso, procure um profissional que possa ajudar no processo de restauração e conforto psicológico.

Decepção amorosa

A decepção amorosa é bastante comum e, muitas vezes, acontecem por uma falha na comunicação ou mesmo decorrente de experiências anteriores.

Inclusive, ao sofrer uma grande frustração em um relacionamento, o indivíduo pode ter medo de amar novamente, de conviver com outras pessoas e pode ficar com o emocional abalado, evitando que novas relações aconteçam.

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Na maioria das vezes, a decepção amorosa ocorre por uma quebra na confiança (como mentiras e traições), rompimentos abrupto “sem motivo” ou tentativa de melhora, mudanças no comportamento, afastamento e outras.

Em suma, a expectativa é que o relacionamento seja mútuo e positivo. Logo, quando algo quebra essa “corda” da relação, tudo é colocado em prova.

Por exemplo, se você descobre que o parceiro mentiu sobre o lugar que estava, começa a questionar onde realmente foi, o que fez e se todas as vezes que falou onde estava eram verdade ou não.

Além disso, as traições podem abalar a autoestima daquele que foi traído, gerando medo, desconfiança e até raiva ou desejo de vingança.

Nos rompimentos abruptos, o cérebro começa a procurar razões que expliquem tal situação, e muitas vezes não encontra nada. Causando raiva e decepção.

Como os relacionamentos amorosos causam vulnerabilidade, você confia que o outro não vai causar sofrimento, quando algo acontece, parece ainda mais difícil e doloroso.

Dessa forma, é importante avaliar a situação com cuidado, respeitar a si mesmo, encontrar segurança (seja em algum familiar/amigo ou lugar) e ter o suporte que precisa para se recuperar.

O que dizer para uma pessoa que te decepcionou?

Primeiramente, se alguém te decepcionou, é importante entender por que exatamente esse sentimento foi causado. Ou seja, considere qual foi o “erro” cometido ou se era uma expectativa sua e desconhecida pelo outro.

Independentemente da situação, o ideal é que você estabeleça uma comunicação clara com esse indivíduo.

Então, converse e fale o que está sentindo, porque se sentiu dessa forma, qual foi o comportamento/ação que causou a decepção.

Além disso, dê espaço para o outro explicar a forma como ele vê aquilo e se realmente tem arrependimentos ou sente pela forma como você está sofrendo.

Muitas vezes, não há um pedido de desculpas. Já que o outro não sabia das suas expectativas, considera que fez a melhor escolha ou vê a situação como algo pequeno demais.

Nesses casos, é preciso colocar na balança os seus sentimentos em relação ao todo, que está acontecendo.

Inclusive, esse desapontamento pode causar o luto, já que é a perda de um sonho ou mesmo de alguém que você gostava de ter na sua vida. O ideal é dizer:

  • Porque ficou decepcionado;
  • O que esperava que acontecesse;
  • Quais são os seus sentimentos diante de tudo isso;
  • Ideias e expectativas em relação ao futuro.

Mas, atenção: dizer tudo isso não significa que o outro vai reagir conforme o esperado.

Então, tenha em mente a importância de ser verdadeiro com os seus sentimentos e que aquilo que o outro faz pode não condizer com os seus valores e ideais.

Como lidar com a dor da decepção?

Lidar com a dor da decepção é aceitar o que aconteceu, entender como chegou neste ponto e/ou o que pode ser feito a partir desse ponto. Muitas vezes, você não irá encontrar todas as respostas que estava buscando, mas isso não significa ficar estagnado, esperando algo mudar.

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Assim, é importante respeitar esse momento, onde pode sentir diversos estágios do luto. Como a barganha, raiva e tristeza. Os sentimentos são completamente válidos, mesmo que as expectativas eram apenas suas.

Da mesma maneira, avalie o outro lado da história, principalmente se tiver uma conversa clara e sincera com aquele que lhe decepcionou.

O ideal é tentar entender a visão que ele tem da situação. Muitas vezes, as pessoas não sabiam que existia determinada expectativa ou até esperavam que você ficasse feliz pelo caminho que escolheram.

Um caso clássico disso é quando os pais projetam nos filhos os sonhos que eles tinham. Logo, esperam que a prole cumpra com alguns requisitos. Como ter aquilo que eles não tiveram, cursas determinada faculdade, trabalhar em algum local, etc.

Frequentemente, isso tudo é pensando no bem-estar do outro, por acharem que aquilo é o melhor. Mas não cabe a eles decidir isso e vão ficar decepcionados se o filho decidir seguir outro caminho, e seu próprio sonho.

E o que fazer com a dor?

Em resumo, a dor será sentida. Reprimir isso é extremamente prejudicial para a sua mente e corpo.

Dessa forma, desacelere um pouco e dê tempo para as coisas acontecerem, para entender suas próprias emoções e fazer uma análise mais completa da sua decepção.

O essencial aqui é não ruminar o que aconteceu.

Em outras palavras, evite ficar o tempo todo pensando no que acontece, no que poderia ter feito diferente, destacando cada aspecto da conversa ou repetir continuamente toda a decepção que sentiu.

Ficar remoendo via causar maior sofrimento psíquico, ansiedade e pode levar a depressão. Fazendo com que tudo gire em torno daquilo.

Não é fácil, mas curar a si mesmo é um processo contínuo e que pode começar em uma sessão de acolhimento, com um profissional que lhe ajude a adotar outra perspectiva. Por isso, não hesite em procurar a ajuda que precisa para se sentir mais confortável onde estiver!

Felipe Laccelva

Felipe Laccelva

Psicólogo formado há mais de dez anos, fundador e CEO da Fepo. Fascinado pela Abordagem Centrada na Pessoa, que tem a empatia como eixo central para transformar o ser humano. Sempre buscou levar a psicologia para mais pessoas e dessa forma criar um mundo mais saudável e acolhedor.

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