Vício em Pornografia – Quando o prazer deixa de ser prazeroso

A pornografia é um tema difícil para muitos. Seja pelo receio em receber algum julgamento de terceiros, pela incerteza sobre ser um problema, por todos os tabus envolvendo a sexualidade ou mesmo por não querer trazer esse tema à tona. Já que a perspectiva de como isso afeta a saúde física, emocional e mental ainda é recente.

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Entretanto, é preciso entender melhor os impactos desse vício, quais os sintomas e como ele pode progredir. Principalmente nas fases de desenvolvimento humano, como na adolescência. Inclusive afetando os relacionamentos afetivos, convívio social e mais.

A história do pornô – O marco importante

Primeiramente, vamos aos principais fatos e dados que temos sobre o assunto.

Assim, a palavra pornografia surgiu a partir do termo “pornographos”, de origem grega e que significa “escritos sobre prostitutas”. Ou seja, era a maneira que aqueles indivíduos descreviam e falavam referente a esse público (prostitutas). Tanto a forma como elas se comportavam, costumes e como agiam com os clientes.

Sendo assim, já sabemos que não é nada novo. Pelo contrário, há 2500 anos, os moradores de Atenas eram adeptos de várias coisas relacionadas ao sexo, como apresentações, nudez, representações e até situações envolvendo grupos. Olhando rapidamente na história, temos livros gregos e muitas estátuas que mostram isso.

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Mas não é só isso. Naquela época, era comum que cenas eróticas fossem estampadas em vasos e esses ficassem expostos nas salas e demais espaços comuns. Também foi nessa época e local que surgiu o primeiro concurso de bumbum, chamado de “As nádegas de Vênus”.

Situações semelhantes aconteciam em diversas comunidades e locais, ao longo de toda a história do mundo. Geralmente, marcado pela cultura e costumes dos locais. De qualquer maneira, a sexualidade sempre esteve em alta e os seres humanos sempre encontraram formas de mostrar isso.

Neste cenário, o termo “pornográfico” foi usado pela primeira vez na obra “Diários de uma Cortesã”. Nos escritos, o narrador nos conta como eram as vivências das prostituas, orgias, relações sexuais sem nenhum tipo de sentimento e muitos outros aspectos importantes, até para entendermos como tudo mudou.

Atualmente, a palavra pornografia está diretamente ligada a “assuntos/atos obscenos”. Sendo assim, se distanciou das antigas meretrizes para falar sobre aquilo que causava vergonha, estranheza ou mesmo o “proibido”. Vale destacar que tudo isso sobreviveu mesmo com a repressão, impulsionada pelos movimentos religiosos.

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As tentativas da Igreja

Durante a Idade Média a igreja católica ascendeu ao poder e, com ela, surgiu toda a ideia de pecado capital. Logo, trouxe a ideia de luxúria e sexo como assuntos e ações pecaminosas. Afinal, isso significa se entregar ao carnal.

Foi a partir disso que a tolerância ficou cada vez mais restrita, resultando na Inquisição (1231). Basicamente, tudo que era ligado a sexo e nudez foram “varridos para debaixo do tapete”. Aqueles que iam contra o sistema, acabavam no exílio ou na fogueira. Como o célebre Boccaccio, considerado o Galileu da Pornografia.

É importante destacar que, ao longo dos anos, essa repressão vai e volta, sempre seguindo questões sociais vigentes, questões religiosas ou mesmo aspectos de direito, como a censura.

De qualquer forma, contribui (e muito), com diversas questões que temos até hoje sobre o tema.

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Os primeiros passos das criações do setor

Conforme a história, as produções cinematográficas pornôs surgiram com o mutescope, ou seja, pequenas animações dos projetos a manivela. Inicialmente, eram apenas mulheres tirando peças de roupas ou posando. Mais tarde, o avanço permitiu representações mais longas sobre a sexualidade.

O filme mais antigo que se tem dados, considerado pornográfico, é “O escudo de ouro”, também chamado de “Bom Albergue”, de 1908. Dois anos depois, veio a primeira produção mostrando cenas mais “quentes”. Inclusive, ter ou ver a obra (O Entardecer), era punível com prisão.

Vício em Pornografia

A história da pornografia nos mostra que esse desejo em ver e saber mais, é natural aos seres humanos. Principalmente quando se trata de algo proibido ou intocável.

Porém, junto a isso, temos a questão do vício.

Em síntese, um vício é caracterizado pelo desejo incessante, atitudes compulsivas ou uma busca exagerada. Sendo assim, provoca prejuízos ao indivíduo, que não consegue se afastar daquilo que é desejado.

E, ao contrário do que muitos imaginam, é bastante comum.

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Há anos especialistas vêm buscando formas de entender, lidar e tratar essa questão. Mas foi na pandemia do Covid-19 que tudo se intensificou e novas problemáticas apareceram. Afinal, ficando longos períodos em casa, sozinho, isolado e comprometendo relações e sentimentos, a dependência de conteúdos eróticos elevou-se.

Um exemplo disso foi publicado na Viva Bem UOL. Onde um homem relatou que mesmo casado há três anos, passava até seis horas diárias consumindo sites pornôs. Tudo isso aliado à masturbação. Antes, já era um problema, mas que foi rapidamente agravado.

Uma pesquisa da Netskope Security Cloud mostrou um aumento de 600% no acesso a sites pornôs em 2020.

Conceito e sintomas

Na prática, o vício em pornografia é como qualquer outro: uma busca contínua e excessiva para alcançar um resultado. Neste caso, o desejo é garantido com a masturbação e/ou orgasmo.

Cientificamente, não há uma classificação para tal vício, ainda que alguns profissionais consideram como um “transtorno”. O mais válido para você, é entender que essa busca causa danos físicos, mentais e sociais.

Justamente por isso, são indivíduos que deixam de sentir atração pelo parceiro ou pelas relações que desempenham, não conseguem ficar sem buscar aquele conteúdo, repetem os comportamentos várias vezes ao dia, etc.

Claro que assistir algo esporadicamente não é um problema. Mas quando se torna um vício, prejudica a rotina do sujeito e impacta de várias formas. Principalmente com o avanço da tecnologia. Já que, na internet, tudo fica disponível 24 horas. Além disso, se antes era preciso pagar e sair de casa, agora basta dar alguns cliques e ter tudo de graça.

Sintomas

Os principais sintomas apresentados por indivíduos viciados em pornografia incluem:

  •       Alterações na memória;
  •       Ansiedade;
  •       Elevação na frequência da masturbação;
  •       Problemas de concentração e foco;
  •       Fobia social;
  •       Dores e desconfortos musculares;
  •       Dificuldade com a relação/desejo, principalmente em relações reais;
  •       Objetificação de pessoas;
  •       Ejaculação precoce ou retardada;
  •       Dores de cabeça e crises de enxaqueca;
  •       Pouca satisfação sexual;
  •       Alterações na libido, tanto picos quanto ausência;
  •       Compulsão por assistir (não consegue “evitar”);
  •       Afastamento social, etc.

O diagnóstico é realizado com base nas queixas do paciente, bem como na apresentação da rotina real, dificuldades sexuais e outras, mudanças no estilo de vida e mais.

Também há outros sintomas comuns associados, como baixa autoconfiança, alteração na autoestima, confusões sentimentais e até desligamento do mundo real. Além de sintomas de tristeza, estresse e depressão.

Por isso, se você apresenta algum desses sintomas ou quer focar em cuidar de si de maneira completa, agende o quanto antes a sua consulta com os melhores profissionais. Faça a mudança acontecer!

Causas

Todos os vícios funcionam de maneira semelhante no cérebro: ocorre uma liberação de dopamina durante o ato que nutre o vício, causando sensação de prazer, liberdade e satisfação.

Porém, a partir do consumo, o cérebro exige mais a cada vez, para liberar o hormônio. Isso provoca um consumo recorrente e progressivo, aumentando as “doses”. Como uma droga, se antes você assistia 2 vídeos, vai precisar de 4 para ter o mesmo resultado. 

Tudo isso também tem impacto com o Efeito Coolidge.  Basicamente, o experimento mostra duas questões:

  •       Relações/atos sexuais com o mesmo estímulo conta com um tempo maior de descanso;
  •       Relações/atos sexuais com estímulos diferentes tem um tempo de descanso curto.

Ou seja, com o número de conteúdos disponíveis, o indivíduo “pula” de um pornô para outro repetidamente. Não à toa, muitos sites pornôs apresentam “dicas” de vídeos semelhantes que “talvez você possa gostar”. Isso é elevado pela possibilidade de escolher categorias, pessoas no vídeo, pesquisa por palavras-chave.

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Pensando nas causas, cada caso precisa ser avaliado cuidadosamente.

Afinal, pode ter relação com uma fuga da realidade, casos de ansiedade e depressão, transtornos psiquiátricos associados, histórico de abusos e assim por diante. Muitos indivíduos, por exemplo, relatam que tudo parece ter começado como uma forma de lidar com o estresse, mas agravado rapidamente.

Importante

Você pode encontrar diversos conteúdos interessantes sobre o assunto na internet. Como o podcast Inteligência LTDA com o neurocientista Elsen Delanogare, o podcast MHM de Pornografia: a pandemia silenciosa, bem como o podcast Mauricio Meirelles sobre Os bastidores e malefícios dos vídeos adultos.

Já uma obra literária interessante é o Secret Life de Michael Ryan e Vício Sexual – Quebrando os hábitos dos vícios.

Como se livrar do vício em pornografia

O vício em pornografia também é chamado de ninfomania ou satiríase. Sendo que a maioria dos pacientes só procura auxílio profissional quando o problema atinge esferas como: relacionamentos e trabalho.

Em outras palavras, quando a compulsão pelo pornô impede que ele se relacione, seja família/amigos ou parceiro, bem como quando não consegue mais trabalhar. Alguns, chegam a perder o emprego decorrente das faltas, ausências ou baixa produtividade.

Ao mesmo tempo, a vergonha e o medo do julgamento impedem o tratamento precoce, que poderia ser rápido, efetivo e trazer melhor qualidade de vida.

Então, existem alguns pilares importantes no tratamento desse vício, que devem ser acompanhadas por um profissional:

Compreensão

É importante que o paciente entenda que esse vício é como aqueles que envolvem álcool e drogas, já que há uma razão/explicação cerebral para tal.

Sabendo disso, o indivíduo começa a perceber que existem questões que não são consideradas normais dentro da rotina e evita o pensamento de que “todo mundo é assim”.

Escalada

Segundo a OMS, um dos pilares do diagnóstico e tratamento do vício é delimitar o processo de escalada. Ou seja, entender como é o uso dessa pornografia, quando ela acontece, quando começou a aumentar (mesmo que genericamente) e gêneros usados para a satisfação.

Por exemplo, você vai buscar informações no seu comportamento de: quando começou a consumir e como era no início, se isso foi aumentando, quantas vezes consome por dia, tipos de conteúdos que consome, etc.

Sintomas do uso e abstinência

Para entender melhor como o vício afeta a sua vida, existem dois exercícios importantes apontados pela Organização Mundial da Saúde.

Em primeiro lugar, você deve revisar a sua rotina e tudo o que sente durante o dia, inclusive antes, durante e após o consumo do conteúdo pornô.

Em segundo lugar, vai tentar ficar sem consumir aqueles conteúdos, uma média de 2 a 4 dias, e avaliar como se sente, alterações no humor, sono, concentração e outros.

Geralmente, esse período de abstinência é marcado por agitação, ansiedade, dores de cabeça e/ou crises de enxaqueca, alterações estomacais (como náuseas), irritabilidade e alterações no humor.

Avaliação de tempo

Um exercício comum no tratamento de como se livrar do vício em pornografia é avaliar quanto tempo o paciente passa procurando/pesquisando, escondendo ou usando o conteúdo.

Por exemplo, você vai anotar a hora em que começa a fazer isso durante o dia. Desde o instante em que começa a pesquisar e usar, até para esconder, se “livrar” daquilo (como excluir histórico do computador ou tomar banho), mas também avaliar as mentiras que precisa contar para esconder o que está fazendo.  

Muitas vezes, o tratamento é pautado em garantir uma compreensão do tema. Assim, o indivíduo entende os efeitos negativos dessa compulsão. Valendo-se tanto para a perda de tempo da rotina, isolamento social e nas questões emocionais.

Problemas associados

Durante a avaliação inicial, o paciente pode começar a perceber coisas que, até então, não eram tão nítidas.

Muitos indivíduos só percebem como esse vício afeta a rotina quando buscam o tratamento e ao entenderem determinados comportamentos que pareciam naturais. Como o voyeurismo, ficar observando outros escondido, desejo excessivo por tudo o que é íntimo e privado, diversos parceiros (a) sexuais, baixa energia, disfunção erétil em situações reais, etc.

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Não é incomum o aumento das DSTs. Geralmente ocasionada pelo desejo de saciar rapidamente aquela compulsão, ocasionando relações sexuais contínuas sem camisinha.

Vício em pornografia: procure um atendimento

Por fim, o vício em pornografia tem cura e o tratamento começa a partir do primeiro passo que você dá em direção a um profissional que vai te ajudar a entender o caso, delimitar as necessidades vigentes e iniciar o processo de mudança.

O quanto antes fizer isso, mais rapidamente pode voltar a sua vida normal, saudável e mais prazerosa.

Em alguns casos, pode ser necessário o acompanhamento de um psiquiatra, quando há transtornos psicológicos envolvidos ou uso de medicamentos, como para depressão. Você também pode contar com o suporte de um psicólogo sexual (sexologia), especialista nesses assuntos.

Vida sexual e saúde mental: ajuda mútua

O ser humano tem a necessidade de se relacionar com outras pessoas e quando há equilibrio na vida sexual, pode trazer muitos benefícios. Entretanto, quando há excesso em conteúdo pornográfico e que leva ao vicio e compulsão sexual, pode ter como consequência dificuldade de concentração, ansiedade social, entre outros. Assim, caso entenda que algo não está bem, busque a terapia ou ajuda médica.

Felipe Laccelva

Felipe Laccelva

Psicólogo formado há mais de dez anos, fundador e CEO da Fepo. Fascinado pela Abordagem Centrada na Pessoa, que tem a empatia como eixo central para transformar o ser humano. Sempre buscou levar a psicologia para mais pessoas e dessa forma criar um mundo mais saudável e acolhedor.

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